Guia completo sobre avaliação pré-operatória cardiovascular: como estratificar risco, escolher exames, manejar comorbidades e reduzir complicações perioperatórias.
Introdução
A avaliação pré-operatória cardiovascular é uma das principais causas de encaminhamento ao cardiologista.
O objetivo é identificar comorbidades ocultas, estimar o risco de complicações cardiovasculares e definir condutas para reduzir a mortalidade durante e após o procedimento.
O infarto agudo do miocárdio (IAM) é a principal causa de morte no pós-operatório, e sua prevenção começa com uma boa estratificação de risco.
Tipos de Cirurgia
- Eletiva: pode ser adiada por semanas ou meses.
- Urgência: deve ocorrer em até 24–48h.
- Emergência: deve ser realizada em até 6h.
- Time Sensitive: cirurgias que não são urgentes, mas não podem perder o “timing” — como casos oncológicos.
Etapas da Avaliação Cardiovascular
1️⃣ História Clínica e Capacidade Funcional
A capacidade funcional é o parâmetro mais importante.
- Medida em METs (1 MET = energia gasta em repouso por 40 min).
- Se o paciente sobe um lance de escada sem sintomas, tem > 4 METs → bom prognóstico.
- < 4 METs → risco elevado, mesmo que o paciente pareça “assintomático”.
Pacientes com baixa capacidade funcional têm maior mortalidade perioperatória, independente da causa.
2️⃣ Exame Físico
- Avaliar pulsos periféricos (sugere doença vascular sistêmica).
- Identificar edema + TJP (indica IC).
- Sopro funcional isolado não exige ecocardiograma, mas muitos serviços solicitam por rotina.
- Avaliar fragilidade com o teste Timed Up and Go → se >15s, idoso frágil.
3️⃣ Exames Básicos
Em 90% dos casos, o pré-operatório é resolvido com:
- ECG, Rx de tórax e laboratório básico (hemograma, função renal e coagulograma).
- Exames adicionais apenas se mudarem conduta.
ECG e troponina ultrasensível podem ajudar a detectar risco oculto de IAM.
4️⃣ Ecocardiograma
Indicado apenas se:
- Insuficiência cardíaca sem ECO recente (<1 ano).
- Suspeita de valvopatia moderada/importante.
- Piora clínica recente.
- Transplante hepático ou prótese cardíaca sintomática.
5️⃣ Testes Isquêmicos
Solicitar apenas se mudarem conduta imediata:
- Pacientes de risco moderado/alto → considerar cintilografia miocárdica ou ECO de estresse.
- Não pedir em cirurgias de urgência.
- Teste ergométrico isolado é pouco útil (muitos não atingem carga adequada).
Estratificação de Risco
🧮 Escore de Lee (Revised Cardiac Risk Index)
Critérios:
- DAC
- IC
- AVC/AIT prévio
- DM insulino-dependente
- Creatinina > 2 mg/dL
- Cirurgia suprainguinal, intratorácica ou intraperitoneal
- 0–1 ponto: baixo risco
- 2 pontos: risco moderado
- ≥3 pontos: alto risco.
Em caso de discordância entre o escore e a impressão clínica, priorize o julgamento médico.
Condutas por Situação
Cirurgias de Urgência
- Evitar exames desnecessários.
- Foco em otimizar controle hemodinâmico, ajustar medicações e planejar UTI pós-operatória.
Cirurgias Eletivas
- Controlar HAS, DM e IC antes do procedimento.
- Se IC classe III/IV → adiar até CF II.
- Suspender cirurgia se:
- SCA < 1 mês (ou <2 meses, segundo AHA).
- Valvopatia sintomática grave.
- FA FC > 120 bpm.
- PAS > 180 / PAD > 110 mmHg.
Manejo de Medicamentos
| Fármaco | Conduta Pré-Operatória |
|---|---|
| Betabloqueador | Manter se uso crônico. Iniciar 7 dias antes se indicado. |
| IECA/BRA | Suspender no dia da cirurgia (risco de hipotensão). |
| AAS | Manter se prevenção secundária, exceto neurocirurgia e RTU. |
| Varfarina | Suspender até RNI < 1,5 (usar vitamina K ou complexo protrombínico se urgência). |
| NOACs | Suspender 24–48h antes; não precisam de ponte com heparina. |
IAM Perioperatório
- Maior causa de morte no pós-operatório.
- Diagnóstico: aumento de troponina + sintomas ou alterações no ECG/ECO.
- Tratamento:
- Supradesnivelamento: ATC primária.
- Sem supra: corrigir fatores secundários (anemia, hipóxia, dor).
- Evitar trombólise.
- Considerar HNF (reversível com protamina) em vez de enoxaparina.
Profilaxia de Tromboembolismo Venoso (TEV)
- Avaliar risco com Escore de Caprini.
- Alto risco → medidas farmacológicas + mecânicas por 4 semanas.
- Se alto risco + câncer → profilaxia estendida (1 mês).
- Contraindicações: sangramento ativo, plaquetopenia, coagulopatia.
- AAS não previne TEVAULA 25 – Avaliação Pré Operató….
Conclusão
A avaliação pré-operatória cardiovascular é essencial para reduzir complicações, orientar o anestesista e garantir segurança cirúrgica.
Mais importante que solicitar exames é avaliar clinicamente o paciente e compreender seu risco real.
O cardiologista deve atuar de forma proativa, otimizando a condição clínica e garantindo o melhor desfecho possível.
Referências
- Fleisher LA, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for Perioperative Cardiovascular Evaluation. Circulation.
- SBC – Diretriz Brasileira de Avaliação Cardiovascular no Pré-operatório de Cirurgias Não Cardíacas (2022).
❓ FAQ – Avaliação Pré-Operatória Cardiovascular
Quais são as principais causas de morte no pós-operatório?
O IAM perioperatório é a causa mais comum, especialmente em cirurgias vasculares e de grande porte.
Quando solicitar testes isquêmicos?
Somente se o resultado mudar conduta (ex.: cirurgia adiada ou otimização de tratamento).
Posso operar paciente hipertenso?
Sim, desde que PAS < 180 e PAD < 110 mmHg.
Quando indicar UTI no pós-operatório?
Em pacientes de risco moderado/alto ou com doenças cardíacas instáveis.
A troponina pré-operatória é útil?
Sim, ajuda a identificar pacientes com maior risco de IAM perioperatório.
🔒 Domine as Emergências Cardiovasculares
Quer conduzir com segurança casos de avaliação pré-operatória, IAM perioperatório, dissecção de aorta e arritmias críticas?
No Curso Coração Blindado, você aprende de forma prática o raciocínio clínico e as condutas que realmente salvam vidas no pronto-socorro.
