Guia clínico sobre cardio-oncologia: como prevenir, diagnosticar e tratar a cardiotoxicidade causada pela quimioterapia e radioterapia em pacientes oncológicos.
Introdução
Com o avanço da oncologia e o aumento da sobrevida, cresce o número de pacientes que vivem anos após o diagnóstico de câncer.
Entretanto, muitos desses pacientes passam a desenvolver complicações cardiovasculares associadas ao tratamento oncológico, tornando a cardiotoxicidade um dos maiores desafios da medicina moderna.
A Cardio-Oncologia é a especialidade responsável por prevenir, diagnosticar e tratar as alterações cardíacas induzidas pela quimioterapia, radioterapia e terapias-alvo.
O que é Cardiotoxicidade?
A cardiotoxicidade é a disfunção miocárdica ou arritmia causada por agentes antineoplásicos.
Pode ser classificada em três graus:
1️⃣ Grau I: assintomático, com queda da fração de ejeção (FE) de 10–20%.
2️⃣ Grau II: queda de FE > 20%.
3️⃣ Grau III: insuficiência cardíaca sintomática.
Tipos de Cardiotoxicidade
- Aguda/Subaguda: até 14 dias após a quimioterapia → alterações de repolarização no ECG, arritmias e até pericardite.
- Crônica precoce: até 1 ano após o término da quimioterapia → disfunção sistólica ou diastólica.
- Crônica tardia: após 1 ano → pode evoluir para insuficiência cardíaca dilatada.
Principais Agentes Causadores
- Antracíclicos (doxorrubicina, epirrubicina, idarrubicina): risco de cardiotoxicidade em até 35%.
- Trastuzumabe: disfunção ventricular reversível, mais comum em mulheres com câncer de mama.
- 5-Fluorouracil (5-FU): causa isquemia miocárdica.
- Inibidores de VEGF (sunitinibe, bevacizumabe): induzem hipertensão arterial e disfunção endotelial.
- Trióxido de Arsênio: prolonga o intervalo QT, predispondo a arritmias ventriculares.
Diagnóstico e Monitoramento
🩺 Exames de Acompanhamento
1️⃣ ECG:
- Basal e a cada 6 meses.
- Intervalos menores em pacientes de alto risco ou com cardiopatia prévia.
2️⃣ Ecocardiograma:
- Basal e após doses cumulativas de 200, 300, 350 e 400 mg/m² de antracíclicos.
- Repetir em 3, 6 e 12 meses após o término da quimioterapia.
- Depois, anualmente por pelo menos 5 anos.
3️⃣ Biomarcadores:
- Troponina, BNP e NT-proBNP → preditores precoces de lesão miocárdica.
Mesmo com elevação dos biomarcadores, ainda não há evidência para interromper o tratamento oncológico, mas é possível otimizar o cuidado cardíaco concomitante.
Prevenção e Tratamento
- Inibidores da ECA (iECA) → reduzem a progressão da disfunção ventricular.
- Betabloqueadores (carvedilol, bisoprolol): comprovados no CECCY trial para prevenção da disfunção miocárdica induzida por antracíclicos.
- Controle rigoroso de fatores de risco: HAS, DM, dislipidemia e obesidade.
Outras Complicações Cardíacas em Oncologia
💔 Isquemia Miocárdica
O 5-fluorouracil (5-FU) é o principal agente associado, podendo causar angina e IAM mesmo em artérias coronárias normais.
⚡ Arritmias
- Incidem em 16–36% dos pacientes no início da quimioterapia.
- A fibrilação atrial é a mais comum.
- Drogas como o trióxido de arsênio prolongam o QT, aumentando o risco de torsades de pointes.
🩸 Hipertensão Arterial
- Comum com o uso de inibidores de VEGF.
- Exige controle agressivo e reavaliação precoce.
- Evitar causas secundárias como dor, corticoides, eritropoietina e AINE.
🧠 Eventos Tromboembólicos
- Ocorrem em 1 em cada 5 pacientes com câncer.
- A trombose venosa profunda (TVP) é a principal causa de óbito pós-cirurgia oncológica.
- Sempre avaliar necessidade de profilaxia farmacológica e uso de anticoagulantes orais diretos (NOACs).
Quando Suspender o Tratamento Oncológico?
- Queda da FE > 20%.
- FE < 40% com sintomas de insuficiência cardíaca.
- Arritmias graves não controladas.
- Isquemia miocárdica significativa.
A decisão deve ser multidisciplinar, envolvendo oncologia e cardiologia.
Conclusão
A Cardio-Oncologia representa a interface entre a cura do câncer e a preservação da função cardíaca.
O acompanhamento precoce e sistemático é a chave para prevenir a cardiotoxicidade, permitindo que o paciente mantenha o tratamento oncológico com segurança e qualidade de vida.
Referências
- Lyon AR, et al. 2022 ESC Guidelines on cardio-oncology. Eur Heart J.
- Curigliano G, et al. Management of cardiac disease in cancer patients throughout oncological treatment. J Am Coll Cardiol.
- Zamorano JL, et al. 2016 ESC Position Paper on cancer treatments and cardiovascular toxicity. Eur Heart J.
❓ FAQ – Cardio-Oncologia
O que é cardiotoxicidade?
É o dano ao músculo cardíaco causado por quimioterapia, radioterapia ou terapias-alvo.
Quais medicamentos mais causam cardiotoxicidade?
Antracíclicos, trastuzumabe, 5-FU, inibidores de VEGF e trióxido de arsênio.
Como monitorar o paciente oncológico?
Com ECG e ecocardiograma periódicos e dosagem de troponina/BNP.
O que fazer diante da queda da fração de ejeção?
Manter acompanhamento cardiológico e iniciar iECA e betabloqueador conforme tolerância.
Quando suspender a quimioterapia?
Em casos de FE < 40% ou queda > 20% com sintomas de insuficiência cardíaca.
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